02/02/18 por Daniela Diniz

Jack Ma, fundador do Grupo Alibaba e um dos homens mais ricos do planeta, proferiu uma das falas mais inspiradoras e lúcidas do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. “Não podemos ensinar nossas crianças a competir com as máquinas. Temos de ensiná-las algo único, algo que nenhuma máquina poderá alcançar”, disse Jack Ma forçando a plateia a refletir sobre algo que vá além da velha história dos robôs que irão tomar conta de 800 milhões de empregos nos próximos anos.

 

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Foi um momento de sabedoria em meio à loucura que estamos submetidos diariamente. Na ânsia por acompanhar as inovações, acreditamos que nada que não seja disruptivo, ágil, exponencial, tecnológico ou digital possa valer a pena. Não estou dizendo que tudo isso é uma grande bobagem – absolutamente! Se não pensarmos nisso tudo e não nos adaptarmos a esse mundo ágil e digital, morreremos sim (e ontem), como já escrevi no artigo Vire a chave (ou melhor reset). Mas algo na fala de Jack Ma nos trouxe para uma realidade mais profunda: o que estamos ensinando a nossas crianças? Habilidades técnicas e conhecimento genérico. Há mais de 200 anos, ensinamos as mesmas coisas do mesmo jeito. Mais do que isso, valorizamos as mesmas atitudes e os mesmos pensamentos, pois iremos testá-las da mesma forma usando os mesmos critérios. Ainda podemos arregalar os olhos se nosso filho disser que vai fazer faculdade de artes plásticas ou artes cênicas. Sim, levante a mão quem nunca? Pois nosso raciocínio foi treinado há mais de 200 anos a acreditar na diferença sutil entre uma “profissão de verdade” e uma ocupação passageira. O que não faz mais ou menor sentido atualmente.

Enquanto as escolas estão preocupadas em reprogramar seu jeito de ensinar – e patinando nesta tentativa – esquecemos que existe algo que nenhuma máquina, robô ou extraterrestre irá tirar de nós: a cultura. E isso não está na atividade curricular clássica, nas perguntas de vestibular, no curso de programação de robôs. Está na essência.

As chamadas “soft skills” já fazem parte do repertório corporativo – afinal, sabemos que somente o comportamento será capaz de revelar se tal candidato tem a ver ou não com a cultura e o propósito da minha empresa. Mas, na prática, as regras de contratação e promoção costumam seguir o velho script: habilidades técnicas, entregas de resultados passados, gerenciamento de times.

Quando Jack Ma fala das softs skills, ele se refere a um conjunto de habilidades subjetivas – tão necessárias quanto desafiadoras de se conquistar: valores, crenças, pensamento independente, trabalho em equipe, empatia. E isso não se ensina na velha sala de aula, de forma passiva, com teste no final do bimestre. Tampouco construindo robôs e drones. Sim, pois há quem pense que ensinar o novo é apenas incrementar o currículo com disciplinas de tecnologia. Isso é importante, mas não é a solução. Em seu discurso, Jack Ma mostra o caminho para ensinar e aprender as tais soft skills: esportes, música, pintura, arte.

Não existe melhor forma de aprender sobre trabalho em equipe do que jogando um esporte coletivo. Seja ele qual for. Não existe melhor meio de entender o que é empatia ao se colocar no lugar dos artistas, pintores e músicos. Portanto, se existe um meio de vencer as máquinas é aprender sobre algo que elas jamais serão capazes de fazer. Apresente a seu filho Beethoven, Dostoievsky, Picasso e Pelé – esses seres humanos disruptivos cuja arte se tornou mais do que exponencial, se tornou eterna. 

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